sábado, 4 de novembro de 2017

O papa Francisco estuda permitir padres casados no Brasil; abertura da discussão está autorizada

Iniciativa seria para facilitar evangelização em comunidades isoladas. (Foto: Reprodução)
De acordo com o jornal italiano “Il Messaggero”, citando fontes do Vaticano, o papa Francisco autorizou abrir discussão na Igreja Católica sobre a suspensão parcial do celibato de padres, atendendo pedido de dom Cláudio Hummes, prefeito emérito da Congregação para o Clero.

O pedido foi para permitir que homens casados sejam ordenados na Amazônia, região com poucos padres — e que será o foco do sínodo de 2019, reunindo bispos do mundo todo em Roma e no qual se dará a discussão.


A notícia ecoou negativamente por “Drudge Report” e outros, na direita americana, que vêm questionando o papa por decisões liberalizantes. Em entrevista ao jornal alemão “Die Zeit”, há seis meses, Francisco já havia admitido a possibilidade de aceitar padres casados na Igreja.

Em março, o papa Francisco já havia levantado publicamente a discussão sobre a possibilidade de mudar a disciplina do celibato eclesiástico. Sugeriu que poderia vir à pauta da Igreja o debate sobre a ordenação de Viri probati — ou seja, os homens de fé comprovada — que já fossem casados. “É necessário determinar quais tarefas podem ser confiadas aos homens de fé, sobretudo nas comunidades mais remotas”, disse o pontífice à época.

Dogma

O celibato de padres não é considerado um dogma católico, mas sim uma disciplina. Isso significa que não é uma verdade revelada pela fé, uma vez que por diversos séculos os sacerdotes puderam se casar e ter filhos. Os relatos são de que, nos últimos dias, dom Erwin Krautler, secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, também falou sobre a urgência de lidar com a questão amazônica.

Krautler reconhece que esse é um assunto que pode ser discutido, mas ressalta que não é o ponto principal do sínodo. “O sínodo não tem esse tema. O tema é a evangelização e novos caminhos em relação aos povos indígenas na Amazônia, que está ameaçada em sua sobrevivência. Fala-se também da escassez do clero nessas comunidades. Mas o sínodo foi convocado no dia 15 de outubro e não tem proposta nenhuma dessas ainda. Está tudo no começo”, pontuou Dom Erwin.

“O próximo passo é ouvir as conferências, que farão suas propostas e, a partir de então, formar um manual de alinhamento para depois ser discutido em 2019. O principal é encontrar soluções para as comunidades que não têm eucaristia regular, como podemos enfrentar essa situação.”

Por mais de três décadas, Krautler dirigiu a Prelazia do Xingu, diocese em formação no Pará, e conquistou destaque internacional por defender a Amazônia e os direitos dos povos indígenas.

Origem do celibato

O celibato teve sua origem no clero romano, após 304 d.C. nos concílios de Elvira e Nicéia que proibiam os ministros religiosos casarem-se após a ordenação. A Igreja Católica adotou o celibato dos padres e freiras na Idade Média, para defender o seu patrimônio, a fim de evitar que se tornasse objeto de disputas por herdeiros, tornando-se obrigatório para o clero a partir de 1537, durante o papado de Gregório VII, onde um sacerdote romano que se casasse incorria na excomunhão e ficava impedido de todas as funções espirituais. Um homem casado que desejasse vir a ser um sacerdote, tinha que abandonar a sua esposa, e esta também tinha de assumir o voto de castidade ou ele não poderia ser ordenado padre.

De acordo com a Lei Canônica, o voto do celibato é quebrado quando o padre se casa, mas não necessariamente quando este tem relações sexuais. A Igreja de Roma proíbe seus sacerdotes de casarem-se, mas não interfere na vida particular deles. A Igreja Católica justifica o celibato como uma maneira de tornar o religioso mais próximo aos propósitos de Jesus Cristo.

Entre as ordens religiosas praticantes do celibato estão: Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas, Agostinianos, Mercedários e Servitas. No oriente, a Igreja Ortodoxa, incentiva a ordenação de um clero casado, acreditando que os que optam pelo celibato, o fazem de livre e espontânea vontade.